É preciso senso comum
Em primeiro lugar, senso comum é diferente de ignorância coletiva. Senso comum é sentido comum. É o que o indivíduo mediano conhece por experiência ou por senso crítico. Alguns filósofos já discutiram se nossos sentidos são válidos para entender o mundo. Mesmo que não sejam, isso não significa que o senso comum é inválido para entender os fatores sociais que afetam nosso cotidiano, se ê aí que eles querem chegar..
A ignorância coletiva é, às vezes, justamente o contrário do senso comum. Se já se acreditou que a Terra é plana, isso foi ignorância coletiva. Se uma pessoa da época observava, por exemplo, que o horizonte não era a borda do mundo, estava usando o senso comum, e com ele poderia deduzir que a Terra é arredondada. A ignorância coletiva também é algo produzido, não pura ignorância.
Como disse Gunnar Myrdal, "a ciência nada mais é do que o senso comum disciplinado". A verdadeira ciência e a verdadeira filosofia começam e terminam no observável. São a religião, a má ciência e a "filosofada" que têm no observado por todos um problema a ser contornado.
A demonização do senso comum é mais que um simples equívoco. Se o senso comum, aquilo que todos sabem, é errado, há de haver uma classe pensante que nos diga o que devemos pensar. No passado, a elite religiosa, composta da maioria dos poucos que sabiam ler ou de velhacos menos ignorantes que a maioria, tinha esse papel. Hoje, os acadêmicos são a classe pensante. Estes geralmente nos mostram como as respostas de questões simples, relevantes e diretas são trabalhos extensos e de leitura desestimulante; eles nos mostram como a História é mais mutável do que a maioria das pessoas pensam, mais do que um simples registro dos fatos passados; eles nos mostram como é necessário ter algum diploma (mesmo que conseguido com cópias de trabalhos práticos, compra de teses ou sexo com professores) e artigos em periódicos que pouquíssimos lêem para poder dizer algo sobre alguma coisa; eles nos mostram como precisamos ter lido textos cansativos em linguagem obscura sobre assunto sem relevância prática para podermos discordar deles e fazer nossas palavras valerem.
Uma pesquisa diz que os universitários beneficiados com o sistema de cotas têm as melhores notas1 (se esses são os mesmos coitadinhos vindos da escola pública que precisaram de uma reserva de vagas ou de um bônus para passar no vestibular, alguma coisa aqui não faz sentido). Outra pesquisa diz que pessoas mal humoradas são mais inteligentes2 (deve ter se confundido a irritabilidade, o fazer caso de coisas mínimas, com raciocínio aguçado). São dois exemplos de afrontas ao senso comum.
Preservar o senso comum é sanidade, coerência e coragem de ver a verdade.
Walter Nunes Braz Júnior.
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1 IPEA: cotistas têm melhores notas em universidades. Terra, 25 de maio de 2008. Disponível em http://noticias.terra.com.br/brasil/noticias/0,,OI2907127-EI306,00-Ipea+cotistas+tem+melhores+notas+em+universidades.html. Acesso em 09 de novembro de 2009.
2 R7. Pesquisa mostra que que mal-humorados são mais inteligentes. R7, 03 de novembro de 2009. Disponível em http://noticias.r7.com/tecnologia-e-ciencia/noticias/pesquisa-mostra-que-que-mal-humorados-sao-mais-inteligentes-20091103.html. Acesso em 09 de novembro de 2009.

